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Número de “desajustados” está aumentando. Preste atenção no desviante. Ele pode dar respostas novas (criatividade). Os “subordinados” só prestam para reproduzir os modelos atuais.i 

Faço uma provocação sobre as consequências do Covid-19 nas instituições, aqui compreendidas as organizações sociais e empresas, particularmente nas relações com seus públicos. Chamo sua atenção para lembrá-lo que esse caos está em curso há pelo menos duas décadas, em razão de uma onda de desestruturação que (nós) estamos produzindo. Depois da queda do muro de Berlim, muitos juraram que o mundo tinha encontrado sua “verdade”, seu ponto de equilíbrio, que haveria paz e que todos nós viveríamos bem dessa forma. Não tem sido assim. 

Multidões, durante esses últimos vinte anosii, têm saído em todas as partes do globo, protestando não só contra governos, o setor privado e as organizações sociais, como das agendas da economia, política, educação, justiça, diversidade, meio-ambiente, saúde, segurança e por aí vai. Nada, absolutamente nada, escapa.  

A pandemia apenas acelera, amargamente, esse filme, evidenciando que os sistemas vigentes agonizam e nos fazem repetir o slogan: “isso não me representa”iii, lembra disso? Quem resume bem essa agonia do Estado do Mundo com um aparente jogo de palavras, é o Marcos Cavalcantiiv: “Não se trata de uma era de mudanças, mas de uma mudança de era.” Desembarcam, aos poucos, novos valores, novos paradigmas, talvez o motivo escondido para tanta resistência, conflitos, polarização, violência e formação de tribosv.  

Somos responsáveis por esse processo – sim, você e eu, ledo engano acreditar que tudo isso acontece solto simplesmente por causa da revolução da tecnologiavi.  Apesar dela se desenvolver a olhos vistos, nossa evolução ética, nosso autocuidado nos capacitando para cuidar dos outrosvii, apenas engatinha. Preferimos, primeiro, nos colocar (e os nossos) no centro do mundo e exacerbar a lógica do condomínioviii. Cerca tudo com muros, põe vigias! Desse modo, fica muita (mas muita) gente de fora. As instituições não dão mais conta de entregar o que seria preciso, de contemplar todos que precisam.  

Minha existência me fez compreender que a Vida se desdobra entre duas dimensões: a terrestre e a celeste. Não achamos “saídas”, principalmente Sentidoix para tudo que estamos enfrentando, se não integrarmos esses dois planos. Arrogância acreditar que a intelectualidade de um par de  pseudos notáveisx, remendando esses sistemas a partir do mesmo modelo mental, nos salva e é capaz – sozinha – de redesenhar as instituições. De jeito nenhum! 

“Escada suja se lava de cima para baixo”, frase do Alfredo Assumpçãoxi, indicando que o processo começa por conscientizar, sobre a chegada daqueles novos paradigmas, o topo das organizações, que não são meros entes jurídicos inertes, mas organizações vivas, feitas de gente com competências e outras capacidades que, de maneira interdependente, transformam matérias prima em produtos e ou prestam serviços. São essas pessoas, em regime de dependência recíproca, que desenvolvem relações e vínculos com os Clientes e garantem a entrega daquilo que é prometido. Essa ideia precisa estar clara e no centro de tudo! 

A sabedoria oriunda do “Andar de Cima” indica que a interdependência, a compaixão e a fraternidade, entre outros atributos intangíveis,  devem estar presentes nos comportamentos das pessoas que pretendem alcançar o verdadeiro senso de justiça. Precisa ser bom para todo mundo. Aplicado às organizações, isso significa que suas iniciativas vão favorecer não apenas os envolvidos nas relações de entrega de produtos e ou serviços, mas a sociedade como um todo. Dessa maneira, como diz o Ricardo Guimaraes, serão os “intangíveis” que vão fazer acontecer os ativos “tangíveis” de uma organização,  senão – sem resultados concretos –  morre-se na praia da utopiaxii.  

Identidade organizacional clara é tudo! É a condição básica para que ela provoque o processo de vinculação com seus públicos – interno (colaboradores e terceiros) e externo (Clientes, Fornecedores e Comunidade), base para desenvolver relações que redundem em um profundo e verdadeiro engajamento. É nesse espaço que nasce a colaboração, como a vontade de levantar-se imediatamente da cama, em razão de uma causa, de um Sentido! 

Ouço frequentemente, um consultor perguntar: “quais são as vocações da sua organização, o que ela sabe fazer?” É preciso responder de forma objetiva e fácil sobre “o que” sua organização oferece, em que direção ela navega, “para que” ela existe, qual é a sua “estratégia” e que “sistema ágil” foi criado para garantir suas entregas, mas a partir dos novos paradigmas que são reclamados no mundo. 

Sua gente precisa desenvolver uma cultura de, todo dia, comprometer-se a dar feedback à liderança sobre tudo aquilo que encontrou na linha de frente – tudo, viu? – de forma a se antecipar as tendências e customizar, a todo tempo, as demandas de seus públicos. Mais do nunca um sistema vivo, pulsante, adaptável, constituído por poucas pessoas (!!!), com cabeças no céu e pés na terra, ricas em competências, inclusive de inteligência emocional, mas   com poucas certezas, além de uma disposição inequívoca de realizar para além do trabalho que entregam e da remuneração que recebem: querem constituir legados, realizar-se como indivíduos, com a plena utilização de suas potencialidades. 

A pandemia e suas consequências apenas estão pondo a reinvenção das nossas instituições e sistemas – em regime de urgência, mas não se esqueça: é um processo longo, não ocorre de forma imediataxiii. Desde “sempre” a responsabilidade mútuaxiv por tudo o que acontece e acontecerá no mundo é minha, é sua, é de todos nós.    

Não projete nos outros. Não terceirize!

Sobre o autor: Marcelo Lomelino, executivo em gestão de pessoas e negócios em empresas nacionais e multinacionais. No primeiro setor, trabalhou com parcerias entre 1o., 2o. e 3o. setor. Em consultoria, também atua como aconselhador e mediador de conflitos. É Professor convidado da PEC/FGV/SP nos cursos de Sustentabilidade e Terceiro Setor