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Uma das minhas primeiras leituras sobre o tema meio ambiente aconteceu quando ainda era criança, tratava-se de um livro infantil intitulado “S.O.S. para o planeta Terra”. A emblemática capa desse livro nunca mais saiu da minha cabeça, fundo branco com as letras “S.O.S.” em vermelho, e uma imagem do planeta Terra usando um curativo. Em suas páginas, textos curtos e extremamente didáticos explicavam às crianças da época sobre os principais desafios a serem enfrentados pelo nosso planeta nos próximos anos e décadas: a destruição dos ecossistemas, extinção das espécies, a questão do lixo, a poluição do ar e das águas…. Mas apesar da chamativa capa, não existia nada naquele livro referente a questão da camada de ozônio! Certamente porque ainda não havíamos descoberto esse problema em 1971, ano de lançamento desta publicação. Foi no decorrer dos anos 70, culminando em 1977 com a publicação de trabalhos científicos por pesquisadores britânicos que descobrimos que estávamos afetando a composição atmosférica entre 20 a 35 km de altitude, diminuindo a concentração de gás ozônio e permitindo uma maior passagem dos raios ultra-violeta do sol na superfície terrestre. Algo caracterizado como extremamente prejudicial à vida na terra!

Durante pelo menos 10 anos os cientistas alertaram sobre a diminuição da concentração do gás ozônio na estratosfera terrestre. Pesquisas mostravam que a perda de apenas 1% da chamada “camada de ozônio” seria responsável pelo surgimento de pelo menos 50 mil novos casos de câncer de pele em humanos. Fora outros problemas de saúde como a ação dos raios ultra-violeta, lesando o sistema imunológico e causando problemas de visão. A excessiva radiação solar também seria extremamente prejudicial para as mais diversas formas de vida da Terra, afetando a reprodução dos plânctons, taxas de fotossíntese e até mesmo o aumento de toxicidade de algumas espécies de plantas.

O resultado dessa boa comunicação e divulgação de informações realizada pelos cientistas da época levaram a criação em 16 de setembro de 1987 de um tratado internacional voltado a proteção da camada de ozônio, o chamado Protocolo de Montreal, que estabelecia a diminuição de produção e consumo de substâncias que afetavam diretamente o ozônio. Diversos trabalhos já haviam mostrado que a emissão de certos gases produzidos industrialmente pelo homem, afetavam diretamente a camada de ozônio, destacando-se um grupo de substâncias químicas chamadas de clorofluorcarbonetos (CFC´s), muito utilizadas em aerossóis e equipamentos de refrigeração.

O Protocolo de Montreal pode ser considerado um marco na política ambiental internacional, onde os diversos países participantes se comprometeram a diminuir a produção e consumo de substâncias que se mostravam prejudiciais à camada de ozônio causando grande impacto ambiental em níveis globais. E o melhor de toda esta historia: temos sim o que comemorar, em 2014 a Organização das Nações Unidas divulgou uma série de dados informando início da recuperação dos danos observados na camada de ozônio. Diferentemente dos demais problemas ambientais apresentados no meu livro de infância, as ações tomadas para a preservação da camada de ozônio mostraram-se efetivas em pouco mais de 30 anos, tornando-se um grande exemplo na política ambiental internacional.

Ricardo Gandara Crede é biólogo e divulgador cientifico, foi responsável técnico por exposições científico culturais como Darwin (MASP 2007) e Revolução Genômica (Ibirapuera 2008). Desde 2009, atua como biólogo na área de manejo e conservação da biodiversidade na Divisão da Fauna Silvestre – SVMA/PMSP.