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Hoje estamos vivendo uma situação de emergência causada pela pandemia do Coronavirus, o COVID 19. Há tempos ela deixou de ser uma emergência de saúde ou mesmo econômica. Podemos dizer que é uma situação de emergência social, pois está questionando e colocando à prova a nossa forma de se relacionar enquanto sociedade. Está colocando à prova a forma de empresas se relacionarem com seus funcionários e clientes, a forma desses funcionários e clientes se relacionarem com a escola do filho e com seus funcionários domésticos, por exemplo. Está mudando o jeito da gente se relacionar com nosso bairro, com o comércio local, com o transporte público… E a gente pela primeira vez está percebendo que tudo na sociedade está interligado. 

A gente está passando a perceber que a vida dos outros não é só problema de cada um, mas pode afetar diretamente ou indiretamente a nossa vida também. A falência de um pequeno comerciante local, a pobreza de uma parcela de pessoas, a falta de alimento no prato de outras, a falta de moradia adequada… e quando muitos já tinham quase certeza de que nada disso era seu problema direto e que a geração de riqueza era só uma questão de individual, todas essas afirmações começaram a ruir. 

Refletindo isso para o terceiro setor, várias campanhas surgiram e estão sendo um sucesso! Muitas empresas e pessoas se mobilizaram para doar… itens hospitalares, dinheiro, cestas básicas… e fazer outros doarem e, com isso, ligaram-se a organizações sociais como forma de fazer toda essa ajuda se concretizar e chegar em quem realmente precisa. São ações realizadas a muitas mãos… sociedade, empresas, governo e terceiro setor… como deveria ser! 

E agora já vemos pessoas se perguntando quando a quarentena acabar e tudo vai voltar ao normal. Mas o que seria o normal a partir de agora? 

Ainda pensando no trabalho do terceiro setor, as campanhas emergenciais já estão demonstrando um desaquecimento das doações, se observarmos o monitor de doações da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos (em junho a curva de doações já estabilizou e não está mais apresentando crescimento). E o que virá depois?  

No geral, temos ainda um terceiro setor que luta para sobreviver, que tem dificuldades em cuidar adequadamente de sua gestão, dificuldades de captar recursos de forma mais estruturada e permanente. Por mais que o investimento social permaneça maior do que era antes disso tudo começar, não será tão abundante quanto nos últimos dois meses e isso já está sendo sinalizado por várias empresas. Ele vai ser redirecionado, vai ser “mais estratégico”, se considerarmos a visão das grandes corporações. O foco das temáticas para as quais essas doações e patrocínios serão direcionados também sofrerão mudanças, acompanhando as necessidades sociais pós-pandemia: geração de renda, renda básica, autonomia financeira das famílias, formação profissional. Esperamos que a preocupação em manter institucionalmente as organizações também passe a fazer parte do hall de estratégias de patrocínio das grandes fontes de recursos, pois já percebemos que essas instituições são a grande chave para momentos de emergência e de não-emergência também. 

Com isso, as organizações terão que fazer uma análise interna para saber se seu trabalho estava realmente funcionando para fortalecer sua causa, seu propósito. Ele será a chave de todo o esforço de captação de recursos. Aquele velho movimento, até então muito presente no terceiro setor, de criar novos projetos de acordo com cada fonte de recurso disponível tem uma tendência de deixar de ser a solução. Na verdade, na minha opinião nunca foi a solução por várias razões, mas agora essa forma de captação será colocada à prova.  

As instituições precisarão entender e demonstrar como suas atividades estão sendo trabalhadas para fortalecer seu propósito, qual é a relação direta entre eles. E aí é que entra o planejamento de captação de recursos. Ele precisará ter como centro o propósito institucional para orientar a estratégia de captação pós-pandemia. Estamos falando de trabalhar a sustentabilidade financeira da organização, sua diversificação de fontes, e, mais do que isso, sua credibilidade e legitimidade de existir. Esse, sem dúvida, será o novo normal! 

Sobre a autora:  

Rachel Carneiro de Sousa é sócia-fundadora da Ideal Social, professora da Fundação Getúlio Vargas – FGV e especialista em responsabilidade social corporativa e sustentabilidade financeira de organizações do terceiro setor.