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Não somos um país perfeito. Desigualdades existem por todos os lugares, e viver no Brasil – a não ser que você se afaste por completo – significa sermos constantemente lembrados de que podemos ter o suficiente, mas que milhões de pessoas lá fora contam com muito menos.

De fato, o Brasil não é um país sem defeitos, e isso serve para valorizar ainda mais aquela que vejo uma das principais características do povo brasileiro: somos naturalmente bons.

O ano de 2020, aliás, tem sido excepcional justamente para mostrar isso. A pandemia do coronavírus nos pegou desprevenidos e despreparados, e infelizmente o Brasil foi bastante impactado pela COVID-19.

As mortes estão quase em cem mil em todo o país, com milhões de brasileiros infectados – felizmente a grande maioria deles também curados.

Se a pandemia nos fez tão mal, ela também foi uma oportunidade para que o brasileiro mostrasse toda a sua generosidade, no maior movimento de doações em toda a nossa história. Foram mais de 6 bilhões de reais, número alcançado nos cinco primeiros meses da crise.

Esse número é inédito. Nunca doamos tanto em tão pouco tempo, em um movimento puxado principalmente pelas empresas, que representaram mais de 80% do valor total das doações. Surpreendente, porque no Brasil, como em qualquer lugar do mundo, as empresas não são as principais doadoras.

Por aqui, empresas costumam até a ser mais valorizadas do que outras instituições, mas mesmo assim não são um primor pela doação que realizam – quando muito, a excelência das empresas está em investir nos seus próprios projetos, como mostram os dados do Censo GIFE e do BISC (as doações representam menos de um terço do investimento social das empresas, quando muito).

Mas na pandemia o movimento das empresas em doar para combater os efeitos do coronavírus foi significativo. Por todo o país, empresas doaram testes, equipamentos de proteção, respiradores, roupas, serviços, e muito mais.

Naturalmente, não foram só as empresas que doaram. Nesse período, mais de 470 mil brasileiros também fizeram sua contribuição, por campanhas de captação em todo o país, que já alcançam quase 1 bilhão de reais sozinhas. De novo, são números também bastante surpreendentes – e são apenas uma parte de tudo o que conseguiu ser identificado.

Esses dados estão consolidados em uma ferramenta chamada Monitor das Doações COVID 19, mantido pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos – ABCR. Lançado no dia 31 de março, o Monitor consolidou informações de mais de 380 grandes doadores (acima de 3 mil reais), e 516 campanhas de captação, online e off-line. Tudo está disponível em uma tabela pública, que pode ser acessada e baixada por qualquer pessoa interessada em fazer o seu próprio estudo dos dados das doações durante esse período.

Quando olhamos para as causas principais dos doadores, só poderíamos esperar que a saúde aparecesse em primeiro lugar (é uma pandemia, afinal), o que realmente acontece: 77% das doações têm como foco principal a área da saúde. Assistência social vem logo em seguida, com 19% das doações com esse recorte, e educação em terceiro, com 5% apenas.

Já em relação à forma da doação, quase dois terços dos recursos foi dado em dinheiro, um terço dele em produtos, e o restante em serviços, realização de obras e isenção de tarifas para clientes.

E quem mais foi beneficiado pelas doações em todo o país foram instituições com personalidade jurídica – sejam privadas ou públicas, com 58% dos aportes dirigidos a elas. Em seguida vieram as doações para fundações próprias, com 23% (caso único e excepcional do Itaú, que doou 1 bilhão e 200 milhões para que a própria Fundação fizesse a gestão e posterior desembolso dos recursos), pessoas físicas (9%) e fundos filantrópicos (6%).

De forma geral, são números positivos e inspiradores: os brasileiros se mobilizaram para reagir aos impactos negativos do coronavírus, e o fizeram de várias maneiras, como pessoa física, pelas empresas, online, etc.

Não fosse assim, teríamos efeitos ainda mais negativos em toda a sociedade – que, inclusive, não sabemos sequer calcular.

Melhor então que as doações tenham nos surpreendido e ultrapassado qualquer expectativa realista no início da pandemia. O brasileiro é bom e doa muito, e isso está cada vez mais à vista de todo mundo.

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR e professor da FECAP

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Sobre o Autor:

João Paulo Vergueiro, Diretor Executivo da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Professor da FECAP, administrador e mestre em administração pública pela FGV-SP, e bacharel em Direito pela USP. É, voluntariamente, Coordenador do Grupo de Excelência de Gestão do Terceiro Setor, do Conselho Regional de Administração de São Paulo, e Conselheiro de Administração da Kibô-no-Iê.